facebook

«

»

out 19 2015

Imprimir Post

A mulher brinde de cerveja

A violência doméstica é definida pela Lei Maria da Penha como sendo “qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial”. A Lei, para não deixar qualquer margem à dúvida, ainda afirmou que a “violência doméstica e familiar contra a mulher constitui uma das formas de violação dos direitos humanos”.

Sem dúvida, sob vários prismas, a lei é um grande avanço legislativo, contudo, ainda não é o suficiente para atingir o fim a que se propõe, qual seja, erradicar a violência contra a mulher. É preciso, ainda, adotar-se políticas públicas que coíbam o pensamento machista de que as mulheres são inferiores e propriedade masculina.

No Brasil, para muitos, a mulher é vista como sendo um mero objeto de satisfação sexual. A forma com que a imagem da mulher é explorada na publicidade evidencia a “coisificação” feminina. A exposição do corpo da mulher é utilizado como estratégia de persuasão nas peças publicitárias que pretendem promover diversos produtos.

Sabe-se que a publicidade, que é impregnada de linguagem persuasiva, muitas vezes é utilizada como instrumento de controle social, na medida que interfere nos hábitos e opiniões de seus destinatários.

A publicidade é capaz de moldar gerações, de tornar algo não-natural em algo natural. O modelo de beleza, quase inatingível, vigente em nossa sociedade não é natural. É forjado pela publicidade. As mulheres exuberantes da televisão não correspondem às mulheres de verdade.

As belíssimas mulheres exibidas na publicidade de TV’s, jornais, revistas e internet quase sempre são exibidas como se fossem um produto a ser consumido junto com o carro, com a cerveja, com o parafuso, com o sorvete, enfim, com qualquer coisa que se queira vender. A mulher da publicidade é estereotipada, um mero objeto sexual. O problema é que o estereotipo da publicidade alcança o mundo real.

No mundo real, o da violência doméstica, vê-se que a mulher é encarada pelo companheiro como se fosse um mero objeto, uma propriedade sua e que deve estar sujeita aos seus caprichos. A publicidade reforça tal noção, ao disseminar que os “poderosos” e “bem sucedidos” dispõe de todas as mulheres aos seus pés, como se fossem capachos. A dominação simbólica da publicidade serve de modelo e incentivadora da tentativa de dominação real.

O modelo publicitário de dominação e subordinação da mulher passa a ser visto com naturalidade pelos expectadores, que, muitas vezes, não conseguem bem elaborar mentalmente a diferença entre a ficção publicitária e a realidade. Em países mais desenvolvidos, como é a França, desde 1975 é completamente proibida a publicidade que faça uso do corpo e da sexualidade da mulher para promover produtos. A maioria das propagandas brasileiras de cerveja, ad exemplum, não poderiam ser veiculadas na França, por degradarem a imagem da mulher.

Importante destacar que a crítica à publicidade brasileira, que explora o corpo feminino como se fosse um produto, não é fruto de moralismo ou de puritanismo. A crítica é ao incentivo da perpetuação do simbolismo cultural de subordinação da mulher, que reforça os estigmas sociais que redundam em violência doméstica.

É totalmente inaceitável – e com razão – a veiculação de peças publicitárias que reforcem o preconceito racial, porque a publicidade traz reflexos sociais. Por qual razão, então, é aceitável a publicidade que reforça estereótipos de natureza sexual?

As campanhas publicitárias são direcionadas a perpassar a ideia de felicidade e de sucesso. Basta buscar na mente a publicidade das margarinas, em que a família feliz, de dentes esbranquiçados, confraterniza-se à fausta mesa de café da manhã. Nas propagandas de vários produtos, as mulheres, em situação inferiorizada, auxiliam na formação da imagem do sucesso, imagem que vai se refletir no cotidiano real das pessoas.

O fenômeno da comunicação de massa torna os efeitos da publicidade cada vez mais abrangentes. Um vídeo no You Tube ou no Facebook, em questão de minutos, pode ser visualizado por milhões de pessoas, ditando moda e comportamento.

No caso da publicidade cervejeira, a publicidade consegue unir o prazer sexual ao produto que se quer vender. Cria-se um ambiente propício para que o homem se deixe seduzir e enganar que depois de consumir aquela cerveja terá acesso ao prazer sexual. (Aí, quase que de forma irônica, o sujeito bebe até não poder mais, chega em casa bêbado e ainda briga com a mulher, indo, todo mundo, menos o publicitário, parar na delegacia de polícia). Obviamente, o problema da violência doméstica é mais abrangente do que os efeitos da publicidade. As causas da violência doméstica são múltiplas, que, no entanto, são reforçadas pelo marketing em que a mulher é inferiorizada. A propaganda de bebidas alcóolicas produz, aliás, vários malefícios à sociedade, pois incentiva o uso da droga (álcool é droga), ainda que lícita. Droga que é intimamente ligada às mortes no trânsito e à violência doméstica.

Além de atingirem e reforçarem traços culturais de dominação masculina, a publicidade ainda atinge as mulheres, incutindo nelas um ideal de beleza e perfeição estética inatingível. Quantas mulheres não fazem sacrifícios absurdos para atingir o inalcançável padrão de beleza da publicidade?

A propaganda que reforça padrões culturais prejudiciais à sociedade não pode ser tolerada. Não se trata de censura, longe disso. Trata-se de impedir o fomento à condutas que trazem prejuízos sociais incalculáveis. Proibir a publicidade cravada de xenofobia não é censura. Impedir publicidade com ofensas raciais também não é censura. Pelos mesmos motivos, proibir-se a publicidade que inferiorize a mulher, que a reduza a uma mera mercadoria com apelo sexual também não pode ser taxado de censura.

Enfim, a Lei Maria da Penha trouxe vários avanços na punição de quem comete crimes relacionados à violência doméstica contra a mulher. Todavia, ainda é insuficiente, porque é preciso combater os elementos culturais que banalizaram a violência contra a mulher, é preciso atacar as questões que potencializam o risco de agressão. A publicidade reforça os estigmas de subjugação a que inúmeras mulheres estão expostas. É preciso banir tais propagandas, assim como se fez com a publicidade do tabaco. É preciso que a mulher seja respeitada em casa, mas também que seja respeitada na sociedade, que não seja “vendida” como se fosse um produto, uma coisa, um acessório de carro ou um tira gosto da cerveja.

Link permanente para este artigo: /a-mulher-brinde-de-cerveja/

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>