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dez 30 2015

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Ao dar pipoca para filho com autismo, mãe ouve primeiro “eu te amo”

Ana Carolina Ferrão e seu filho Pietro, de 3 anos e nove meses, que tem autismo

O que mais chama a atenção em pessoas com autismo é o prejuízo nas habilidades sociais, onde há uma “certa inadequação em abordar e responder aos interesses e emoções”, segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais daAmerican Psychiatric Association(APA). Por isso, ao demonstrar o que sentem, estas crianças enternecem, deixando marcas profundas nos pais, para sempre lembradas com ternura e felicidade.

Para a funcionária pública Ana Carolina Ferrão, de Vitória (ES), o Natal também será lembrado por muitos anos, já que poucos dias antes teve o diagnóstico de autismo confirmado em seu filho Pietro, de 3 anos e nove meses. “Ser mãe de uma criança com autismo é uma experiência surreal. Passamos a enxergar o mundo de forma diferente. Enxergamos melhor o próximo. É uma bondade, uma pureza, que não se explica”, afirma.

E ela, como quase toda mãe (e pai) de uma criança com autismo, também tem sua história de quando o filho demonstrou uma grande emoção.

“Até os três anos ele não falava. Nunca tínhamos ouvido um ‘eu te amo’. Eu pedia a Deus por isso”

Foi então que esse dia chegou e, tal como a história de Romeo, se deu de uma maneira inusitada. “Meu filho adora pipoca e sempre comprávamos para ele. Um dia, porém, o pipoqueiro não estava lá, no local onde sempre comprávamos. Sem pipoca, ele ficou contrariado”, conta Ferrão. “Neste mesmo dia, voltando para casa, resolvemos passar na casa do moço que vendia pipoca, para agradá-lo. Quando ele pegou o saco de pipoca, ficou tão feliz que falou: ‘obrigado, mamãe, eu te amo’. Foi a pipoca mais feliz de nossas vidas.”

A psicoterapeuta Adriana Moral, coordenadora do Instituto Lumi, de São Paulo, voltado a crianças com autismo, explica que a “dificuldade social” das crianças explica tanto a inabilidade em demonstrar emoções como o gosto por objetos, como a escova de dente azul do filho de Mion, em detrimento de brinquedos.

“As crianças com autismo não têm essa questão de comparar os presentes, mostrar para o outro, ter o que está na moda etc. Além disso, têm interesses diferenciados, vide a escova de dente azul”, explica a psicoterapeuta. “Tudo isto envolve emoção, mas eles têm essa dificuldade social. De não pensar no que é legal. E eles têm dificuldade no brincar. Não tem aquela imaginação toda. Por isso, muitas vezes objetos de uso regular [como a escova] são mais interessantes.”

“Meu filho chorou ao se despedir”

Ana Maria Serrajordia, engenheira de profissão e fundadora do AMA (Associação de Amigos do Autista) de São Paulo, é mãe de um adulto de 36 anos, que tem um autismo “severo”, nas palavras dela.

“Lembro-me de meu filho ter chorado uma única vez. Ele era pequeno, e a escola que frequentava ia fechar. No último dia de aula, ele começou a chorar e se agarrou à diretora”, conta. “Muito tempo depois, 29 anos para ser mais exata, relembrei essa história e a ex-diretora da escola ficou sabendo. Combinamos de nos encontrar e quando meu filho a viu, ficou visivelmente feliz. Ele a reconheceu e não escondeu a felicidade em vê-la. Fiquei emocionada”, completa Serrajordia.

Acervo Pessoal

Ana Maria Serrardjia, com o marido Samuel e o filho que tem autismo, Guilherme

Outras tantas histórias, como a de uma criança que aprendeu a ler sozinha antes mesmo de falar, ou de outra que ficou triste quando percebeu que estava entrando em férias e ficaria longe dos amigos por um tempo, são comuns entre os frequentadores da AMA.

“Quando minha filha foi diagnosticada com autismo, fiz vários cursos no AMA, me apaixonei por eles. Vesti a camisa mesmo, tive que renunciar à minha vida”, diz a pedagoga Danielle Miranda, mãe de Manuela, de 3 anos e meio. “Sem luto, com luta”, ressalta.

Para ela, qualquer sinal de desenvolvimento das crianças é comemorado. No Natal que passou, quem fez pedido para o Papai Noel foi ela: “Pedi para o Papai Noel trazer um desenvolvimento maior, uma maior independência para as crianças. Também para trazer mais discernimento para os pais.”

Morel concorda que a aceitação dos pais e a agilidade em iniciar o tratamento é fundamental para que as crianças tenham um desenvolvimento minimamente adequado. É importante frisar, também, que as características de uma pessoa com autismo podem variar dentro de um amplo espectro, que pode ir de severo a moderado. Nos casos mais graves, além da dificuldade na interação social, alterações na linguagem e no comportamento também podem ser observados. Já em casos mais moderados, o desenvolvimento de habilidades específicas, bem como um alto nível de inteligência, que pode chegar à genialidade, muitas vezes são registrados.

Fonte: UOL

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