“Ai de mim se não fosse eu”

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Empoderamento

Por Ellen Dastry

Não sou de assistir novelas, mas passei pela Rede Globo num capítulo de “A força do querer”, e me deparei com a personagem de Zezé Polessa, Edinalva. Ela usava o seguinte jargão “ai de mim se não fosse eu”. Dei muita risada ao vê-la falar a frase de forma tão solta, tão livre, tão intimamente verdadeira. Ai de mim se não fosse eu – isso é, verdadeiramente o melhor exemplo de empoderamento feminino. 

Nesse ano, o dia internacional da mulher acontece em meio a escândalos de assédios por todos os cantos e tendo o termo “empoderamento” na boca do povo. A luta das mulheres parece ter tomado um novo fôlego, mas eu, que sou da década de 60, estou um pouco confusa com esse novo cenário de lutas e bandeiras.

Quando eu vejo mulheres indo para a mídia denunciar casos de assédio acontecidos há 10, 20, 30 anos atrás, fico bastante confusa. Primeiro porque a imagem das mulheres que vão à mídia sugere a mim, mulheres frágeis, humilhadas e caladas há anos. Depois porque, eu até entendo uma mulher assediada de forma grosseira, demorar para ter coragem de se expor, mulheres que sofreram abuso ainda muito, muito jovens. Claro que eu entendo que leva um tempo para que consigam se expor, mas… 10 anos? 20 anos? 30 anos? Caramba…. mais uma vez a imagem da fragilidade toca fundo na minha alma.

Quer dizer que somos frágeis? Que não andamos nada desde os anos de 1960, quando um bando de mulheres foi às ruas e queimar seus próprios soutiens? Eu não me enquadro nessas mulheres que vejo nesses movimentos de agora. 

Venho de uma família onde todas as mulheres trabalhavam fora – todas! Mulheres fortes, que levaram suas casas, seus filhos e casamentos na unha e na alma. Cada uma a seu modo, exemplos para mim.

Entrei na faculdade de jornalismo em 1978, comecei a trabalhar em TV em 1982. Confesso – o mercado da TV era muito, muito, mas muito diferente do que temos hoje. Haviam poucos profissionais formados em universidades, o tal “teste do sofá” era bem comum mesmo, não existia um RH que protegesse os colaboradores da área. Mas não era preciso fazer nada do que você não achasse correto para se manter trabalhando. Foi assim comigo. Nunca pertenci a turma da festa, nem a turma das drogas, muito menos a turma da balada. Fui assediada, não cedi e também procurei não me colocar em situações onde uma negativa minha pudesse ser complicada, mas nem por isso precisei ficar num canto calada. Fiz amigos que mantenho até hoje, especialmente fiz uma série de histórias divertidas pra contar.

Não posso comparar meu caminho como mulher ao caminho das mulheres de alguns países da África, ou Ásia. Também não posso comparar meu caminho ao de mulheres que nasceram e vivem em locais distantes dos centros urbanos, com uma vida precária de tudo o que é essencial. Estou falando de mulheres contemporâneas que vivem em ambientes urbanos, que acompanharam a virada das mulheres nesses últimos 60 anos. 

Enfim, também não quero julgar, nem é o meu papel, só não me encaixo a esse novo movimento, entendo a bandeira, mas não entendo a imagem de fragilidade dessas mulheres. Exatamente por isso, comecei esse texto lembrando-me da Edinalva vivida brilhantemente por Zezé Polessa, e do jargão tão verdadeiro: “ai de mim se não fosse eu”

O “ai de mim se não fosse eu” não diz respeito a solidão, a ter de ser você por você porque não tem ninguém a seu lado. Diz respeito ao caminho que escolheu para trilhar – essa escolha, do que fazer em cada situação, de como encarar a vida e seus desafios – é só sua.

Assumir suas próprias escolhas é empoderar-se de seu caminho, de seu futuro, de sua vida. E vamos em frente, mais fortes, mais inteiras, com a cabeça mais erguida – até porque ficamos infinitamente mais bonitas e com uma postura muito mais elegante. Empoderadas do nosso destino.

Ellen Dastry
Ellen Dastry

Ellen Dastry é jornalista, radialista, pós-graduada em comunicação e marketing, roteirista e diretora de programas de TV por mais de 30 anos, é autora dos livros Histórias que podem mudar suas vidas;  Nós – Mulheres do Futebol e Nós – Mulheres de Ouro, esses em co-autoria com Silvia Securato. 

É também responsável pelo blog Conselho de Vó.

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