Crie um bode e limpe a consciência

O ser humano não consegue lidar bem com os próprios erros e falhas. Para conviver com a culpa e a atenuar, cria bodes expiatórios

RESPONSABILIDADE PESSOAL

André Soares

4/14/2022 4 min read

Reza a lenda ou a história, que uma serpente passeava por um jardim paradisíaco, quando se encontrou com uma mulher. A serpente disse que ela estava acima do peso e que tinha um santo remédio. Bastava uma mordida e ela se sentiria como uma deusa. A mulher, tentada pela perspectiva de se tornar deusa, concordou com a mordida. O céu se rasgou. O mundo mudou. A mulher ofereceu uma mordida ao marido. Ele também aceitou. A serpente ficou exultante. Aquela mordida fora fantástica. Mudou a história, como veremos adiante.

Passado alguns segundos, minutos, horas ou dias, não sabemos ao certo, o casal ouviu alguns passos. O homem e a mulher estavam nus. Se cobriram com uma folhagem. Mal acabaram de se cobrir, ouviram uma voz grave e forte dizer: "Vocês (morderam) comeram o fruto proibido?", e Eva respondeu, "foi a serpente que me deu a maça, se ela não tivesse dito que eu ia ficar magra, eu não teria mordido" e, sem esperar qualquer pergunta, Adão respondeu, "a Mulher que criastes me deu a maça, eu tive que morder". A serpente, que não mordeu a maça, até hoje leva a culpa de tudo.

Podemos dizer que a serpente foi o primeiro bode expiatório que surgiu. E, até hoje, quando fazemos alguma coisa de errado, recorremos à diversas espécies de bode expiatório. Adão e Eva desobedeceram Deus e culparam a serpente. Hoje, os homens matam uns aos outros, e acham um bode expiatório.

Se olharmos os 10 mandamentos, veremos que os homens e mulheres modernos seguem, a exemplo dos primeiros pais, desobedecendo Deus. E ainda usamos o velho bode expiatório, a serpente do Jardim do Éden. Dizemos, não sei o que aconteceu, não era eu, era uma possessão. Eva, contudo, foi mais sincera. E, quando olhamos o cumprimento das leis, sistematicamente desrespeitadas, veremos um bode expiatório.

As emoções afetam de modo contínuo o nosso processo de pensamento. E a emoção mais comum é o desejo de sentir prazer e evitar dor. Esse desejo primordial nos impede de aprofundarmos nos pensamentos que nos causam desconforto e faz com que nos concentremos nos pensamentos que geram alegria e prazer. Um mecanismo que o nosso cérebro utiliza para evitar a dor é a criação de bodes expiatórios.

O bode expiatório permite que desviemos o nosso pensamento da nossa própria culpa ou falha e olhemos para outro ângulo, para o bode expiatório.

Entenda como funciona esse mecanismo de alívio da culpa.

O bode expiatório é inflamatório. Quanto mais olhamos para ele, mais forte ele se torna e, por consequência, menor a nossa responsabilidade pessoal. E, em adição, quanto mais olhamos para o bode expiatório, mais raiva sentimos dele. Quanto mais raiva, menos controle temos do nosso pensamento e mais nos revoltamos contra o bode expiatório. E quanto mais odiamos o bode expiatório, menor a nossa própria culpa. Simples e conveniente.

Vejamos esse mecanismo emocional em ação.

Um pai não visitava o filho. Completo abandono afetivo. Para a consciência de qualquer pessoa - que não seja psicopata - abandonar um familiar próximo, como um filho, é uma conduta reprovável. Dirão, não fui na formatura, porque a mãe/pai da criança não me avisou. Não estive presente no pediatra, porque a mãe não deixava. Não telefonei, porque fulano ou fulana não me deram o número. Não fiz isso ou aquilo, porque não me deixaram fazer. E, com pequenas desculpas, passam dias, semanas, meses e anos.

Os pais (e também mães) que abandonam os filhos, para lidar com a própria culpa, com o peso da consciência, costumam criar bodes expiatórios. Não fiz isso porque a mãe da criança não deixou, e, aí, se afasta da culpa própria e se concentra na mãe da criança. É uma história que se repete desde Adão e Eva.

Quanto mais pensa no bode expiatório, maior a raiva que se sente do bode expiatório. De culpado por abandonar o filho/filha, o pai relapso e ausente começa a se sentir a verdadeira vítima. E quanto mais se sente vítima, mais esquece que abandonou os filhos.

E a sensação de ser vítima é muito melhor do que a de ser algoz. O pai relapso é julgado e condenado pela sociedade. O pai que foi impedido de exercer a paternidade, é uma vítima que recebe empatia e validação social.

Como essa informação pode ser útil?

Sabendo como funciona o mecanismo de criação do bode expiatório, podemos identificar mais fácil a conduta e nos livrar de cair nos dramas dos culpados que querem transferir a culpa para os bodes expiatórios.

Uma das formas de identificação de que alguém está querendo usar um bode expiatório como unguento para a própria culpa, é o comportamento infantil. Eva, ao culpar a serpente, devia estar bufando. Provavelmente estava super agitada.

O pai que busca um bode expiatório para a omissão, dirá que foi alienado da vida do filho. Se for verdade, demonstrará como tentou interagir com o filho. Mostrará tudo o que tentou. Terá ajuizado ações de regulamentação de visitas, mostrará o esforço. O pai que apenas busca transferir a culpa para o bode expiatório, terá um discurso vazio, mas será incapaz de demonstrar como, concretamente, tentou contato com o filho.

Quando você identificar alguém que busca um bode expiatório, se afaste da situação. Não se deixe arrastar para o drama que os culpados, que os que tem peso na consciência, tentam criar. Identifique os tipos inflamatórios e se afaste deles, antes que eles causem dano à sua saúde mental e emocional