Quem dirigiu até aqui?

Fazemos muitas coisas em modo automático. E não entendemos muito bem como certas coisas automáticas acontecem.

COMPORTAMENTO

André Soares

4/23/2022 2 min read

Rosana é uma mulher de uns 40 e poucos anos. Viveu uma experiência muito estranha na última segunda-feira. Estranha experiência, mas sem qualquer ineditismo. Já havia acontecido outras vezes, mas ela não tinha se dado conta do que aconteceu e, principalmente, como aconteceu. Por alguma razão, desta vez, ela percebeu o que fez, ou melhor, percebeu o que não fez. E, sabe o que é mais estranho? Você também já teve uma experiência semelhante e talvez nem tenha se dado conta.

Uma manhã como outras manhãs de segunda-feira. Nada de diferente, mas Rosana estava meio sonhadora. Enfrentava alguns dilemas profissionais, tinha alguns boletos para pagar e estava muito cansada. Quando viu o carro, foi como se tivesse sido abduzida para um mundo diferente. Sentiu como se estivesse na idade média. Não via o carro, mas uma carruagem. Algo que nunca tinha visto igual. Entrou na carruagem e virou a chave. Ligou os motores e partiu.

No caminho, sentia como se tivesse recebido um chamado para uma missão muito importante. Um chamado para salvar o mundo. Algo lhe dizia que um príncipe encantado precisava ser socorrido. Corria perigo de morte. Ela, a heroína, se colocou no caminho para salvar-lo. No percurso, todas as vezes que precisou trocar de faixa, sinalizou. Todas as vezes que se deparou com um semáforo, respeitou as regras de trânsito. Não ultrapassou a velocidade máxima permitida.

No caminho, imaginava que um dragão ou algum ser encantado a esperava para uma batalha épica. Tinha certeza que venceria a luta e resgataria o príncipe encantado. Matando a fera encantada, além de salvar o príncipe, ainda salvaria o mundo. Seu nome, pensava, seria cantado em trovas e versos. Livros seriam escritos sobre a façanha que estava prestes a realizar. Um engarrafamento terrível, fez com que a viagem ao trabalho demorasse mais do que o comum. Normalmente, de casa ao trabalho, o percurso demandava 30 minutos. Naquela manhã, o trajeto demandou quase o dobro do tempo. Foi uma hora de trânsito intenso. O ar condicionado da carruagem estava com defeito, o que fez com que o percurso parecesse ainda mais longe.

Quando Rosana chegou ao seu destino, atrasada para o início do trabalho, a equipe em que que trabalhava já a esperava para uma reunião. Tratariam de um assunto banal. A reunião bem poderia ser um simples e-mail. Até que se deu conta e se fez a seguinte pergunta:

Enquanto sonhava, Rosana, sem se dar conta, saiu de casa, trancou as portas, ligou o carro, respeitou todas as regras de trânsito, deu seta, parou nos semáforos, mas não se lembrava de ter feito nada disso.

Agiu de modo automático, inconsciente, absorvida por um sonho sem qualquer vínculo com a realidade, desenvolveu uma atividade perigosa - dirigir - sem perceber que dirigia.

O mais estranho é que Rosana percebeu, desta vez, que isso costumava acontecer com certa frequência. Comportamentos e atitudes que ela toma, que todos nós tomamos, de modo automático. Percebeu o perigo do comportamento impensado, automático. Descobriu que, dentro dela, existe uma força autônoma, que é capaz de ter vida própria.

E você, já fez alguma coisa de modo automático?

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