Entenda como o demônio da discórdia age

A polarização entre as pessoas gera discórdia e brigas. Em situações extremas, a discórdia dá causa a assassinatos. Entenda uma das principais estratégias do demônio da discórdia

COMPORTAMENTO

André Soares

5/17/2022 3 min read

O mundo se manifesta através dos contrastes. O quente só é percebido porque existe a noção do frio. O certo é evidenciado pelo errado. E a percepção dos contrastes é subjetiva. O que pode parecer certo para uns, é errado para outros. Isso se manifesta de modo claro quando analisamos os costumes. O chavão clichê nos diz que tudo é relativo e depende do ponto de vista do observador. Essa realidade impregnada por certo grau de relativismo, quando associada a certeza de que muitos tem de que sempre estão certos, gera bastante discórdias. Uma lenda antiga, que descreveremos a seguir, ajuda a perceber como a percepção da realidade é alterada segundo a localização, conforme o ponto de vista do observador.

O zombeteiro mandou confeccionar um chapéu com quatro cores. Na lateral esquerda, o chapéu era roxo, e, metade da frente, vermelho. O lado direito, era branco, enquanto a outra metade da frente era verde brilhante.

Dois homens extremamente honrados trabalhavam no campo. Aravam a terra para a preparar para receber as sementes que trariam os alimentos que sustentariam suas famílias. Os campos em que trabalhavam eram separados por uma estrada de terra. Um espírito de zombaria e de discórdia, visando levar ruína aos trabalhadores, resolveria que plantaria uma discórdia entre aqueles homens. O espírito da discórdia tramou um plano engenhoso.

O espírito da discórdia tomou forma de homem, de um idoso. O ancião, na verdade um pequeno demônio, começou a caminhar pela estrada que separava os campos em que os honrados homens trabalhavam. O lavrador que trabalhava no campo da esquerda, teve a atenção voltada para o chapéu roxo e vermelho. O outro homem, que lavrava no campo mais a direita, percebeu o chapéu branco e verde brilhante. O pequeno demônio cantarolava uma canção muito bonita, mas que os homens não conseguiam decifrar o significado.

Os dois, agarrados aos próprios pontos de vista, começaram a discutir, e o debate entre eles se inflamou. Logo, um começou a acusar o outro de ser mentiroso e desonrado. A briga verbal, não demorou, se tornou física. Os homens, honrados, perderam a razão e a honra. Se feriram tanto, que tiveram que ficar meses longe do trabalho. Sem trabalhar, sem produzir, suas famílias caíram na miséria, concretizando o plano inicial do pequeno demônio.

No mundo moderno, o homem é levado a se apegar ao próprio ponto de vista, como se as suas opiniões e pensamentos fossem um dogma de Fé, a mais pura representação da verdade e da inteligência. Quem não pensa como eu penso, quem não age como eu ajo, está errado e passa a ser encarado como inimigo.

Pessoas inescrupulosas, a exemplo do pequeno demônio da história que contamos, se tornam mestres em criar discórdias e suscitar conflitos. Enquanto suas vítimas se tornam presas à vontade de ter razão, os aproveitadores, agindo pelas costas, tiram vantagens e levam os que se deixam enganar à ruína financeira, emocional ou afetiva.

Lançar discórdia, criar o espírito belicoso do “nós contra eles” é uma arma de dominação eficiente e que poucas pessoas conseguem se defender. Basta ver as discussões que envolvem religião ou política. Presos às próprias concepções e “verdades”, as pessoas transformam os que pensam diferentes em inimigos viscerais. Mas, acredite, é possível se defender de tais artimanhas. A fórmula é fácil, basta que consideremos o ponto de vista do outro com empatia, que tentemos entender e analisar as situações e acontecimentos sob a perspectiva dos demais integrantes da sociedade. Isso ajudará a que corrijamos os nossos equívocos e fará com que você desenvolva mais tolerância com os demais.

Lançar discórdia como arma de dominação

Mais tarde, os homens relaxavam em um bar. O pequeno demônio perguntou se eles haviam visto um homem, vestindo um chapéu curioso. Pediu que eles os descrevessem, para que ele tivesse certeza de que o idoso que os trabalhadores avistaram era o que ele estava a procurar. O espírito zombeteiro queria saber para onde o idoso havia ido e ofereceu uma enorme recompensa financeira para quem desse informações precisas.

O primeiro homem, já pensando em como gastaria a recompensa que receberia, descreveu o idoso e o chapéu. Explicou que a indumentaria era roxa e vermelha. Que nunca havia visto um chapéu como aquele. O segundo homem, se apressou em dizer que o primeiro estava errado, que o chapéu era branco e verde brilhante.