Homem mentiu para o advogado e se deu muito mal

Mentir para o seu advogado e para o seu médico é uma estratégia desastrosa e que sempre termina muito mal.

HISTÓRIAS DO DIREITO

André Soares

4/9/2022 3 min read

Dizer a verdade exige uma certa dose de coragem. Muitas vezes, contar a verdade envolve se expor a situações constrangedoras. Confessar às más inclinações e certas condutas que praticamos pode nos deixar embaraçados. Em julgamentos judiciais, por exemplo, não se exige que as partes diretamente envolvidas no litígio façam o compromisso de dizer a verdade. A Justiça, em muitos países, tolera que o acusado de um crime minta. É natural o desejo de não se autoincriminar. No entanto, com algumas pessoas, devemos ser completamente honestos. Na verdade, não com algumas pessoas, mas com alguns profissionais. Para médicos e advogados, jamais podemos mentir, distorcer a verdade ou ocultar fatos. E é fácil entender o motivo. Vejamos adiante.

O médico ouve o relato do paciente. Sintomas e causas são pesados pelo profissional para que ele prescreva tratamentos e medicamentos. Imagine, por exemplo, o médico perguntando ao doente se ele usa bebidas alcóolicas. O doente responde que não bebe. O médico prescreve um remédio que provoca sérios riscos se misturado com álcool. O paciente mentiu. Todos os dias toma uns goles de cachaça, umas latinhas de cerveja ou uma taça de vinho. O desastre é enorme. Inúmeras tragédias já aconteceram e continuarão acontecendo por causa da mentira.

Com o advogado a situação é semelhante. No exercício profissional, várias vezes advogados são surpreendidos, no meio de um processo, pela descoberta de que “o cliente” mentiu. É comum que alguns clientes do advogado, ao contarem alguma história, ocultem da narrativa fatos que façam com que pareçam culpados. Apresentam uma fachada boazinha e distorcem a história para demonstrar coerência. Aí, passado algum tempo, são desmentidos por documentos e testemunhas. Imagine o estrago processual, se a mentira contada pelo cliente tiver sido lançada em um processo. A seguir, conto uma história real, acontecida em um processo.

Desmentido pelo GPS e pelas torres de transmissão de sinal de celular

Uma mulher estava processando um homem casado, acusando-o de assédio sexual. Dizia que ele a convidava para irem a um motel e que se sentia constrangida, com medo de perder o emprego, e, por medo, cedia às investidas, ao assédio sexual promovido pelo patrão.

O advogado dele, uma pessoa séria, me disse que ele jurou de pés juntos que jamais tivera relacionamento sexual com a moça. Que nunca havia a assediado. Que não existia a mínima chance dela provar o assédio ou os encontros amorosos, porque eles nunca aconteceram.

No curso do processo, ela comprovou que a conta do motel era paga por meio do cartão de crédito dela. Também comprovou que, em todas as vezes que esteve no motel, recebeu valores próximos ao total do valor gasto no estabelecimento, por meio de transferências bancárias provenientes da conta da empresa do patrão .Quando confrontado, me disse o advogado dele, ele insistiu, jurou, que jamais tivera qualquer relacionamento com a ex-empregada. As provas que surgiriam depois foram impressionantes.

Torres de transmissão

O homem tinha uma camionete, com o sistema de rastreamento por geolocalização (GPS). Os telefones celulares recebem os sinais de torres de transmissão espalhadas pela cidade. É possível identificar, através da fonte de recebimento de sinal telefônico, a torre de transmissão.Foi determinada a quebra do sigilo de dados telefônicos dos dois e pedido relatório à empresa de rastreamento veicular.

Ela comprovou que nos dias em que tiveram no motel, os seus celulares receberam sinais das mesmas torres de transmissão.Além do sinal das torres, o sistema de GPS do carro, mostra que o veículo dele esteve estacionado no motel, em horários que coincidem com os diversos pagamentos da conta do Motel (realizado com o cartão dela).Com estas provas, a mentira que ele contou ao advogado, e que acabou sendo reproduzida no processo, foi desmontada. E, uma vez provada uma mentira, a credibilidade foi embora. Depois disso, provar que não houve assédio e que o relacionamento era consensual, tornou-se impossível.

Moral da história

Jamais minta para o seu advogado ou médico. As consequências podem ser desastrosas. A indenização, pelo assédio sexual, foi de R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais). E o casamento do patrão infiel acabou e ainda terá que dividir todo o patrimônio.