Veja o que perderíamos se tivéssemos matado nosso filho há 07 anos.

Veja o que perderíamos se tivéssemos matado nosso filho há 07 anos.

8 de agosto de 2019 0 Por Saber Melhor

Temos um filho com síndrome de Down. Menos de 10 segundos após o possível diagnóstico, o médico sugeriu o aborto. Entre a expressão síndrome de Down e a palavra aborto não foram lançadas nem 10 palavras. Não abortamos. Nunca cogitamos tal possibilidade. Sabíamos pouco da trissomia. Hoje, quase 08 anos depois, podemos dizer que deixar nascer foi a decisão mais acertada que podíamos fazer.

O nosso menino chama Daniel. Todos os dias é uma aventura. Ele poderia chamar alegria. Felicidade, resiliência, garra ou superação também seriam bons nomes. Hoje, para nós, Daniel é sinônimo de todos os positivos estados de espírito.

Ele nasceu fraco. Quase morreu. Superou. Teve câncer. Enfrentou a quimioterapia rindo e brincando. Sofreu, mas não se deixou abalar. Aos 03 anos, já havia enfrentado e vencido desafios que muitos adultos não suportariam. Já enfrentou preconceito. Falar é uma dificuldade, mas ele está superando.

Ele é iluminado. Pequeno e transformador de paradigmas. Mudou os nossos parâmetros. Muda a visão dos que se aproximam dele. Se você se aproximar dele, não irá embora sem um convite para a festa de aniversário e sem um abraço. Em momento de dor, de tristeza, esse abraço já nos curou. O médico queria que o matássemos. Se tivéssemos optado pelo aborto talvez nunca soubéssemos o que estaríamos perdendo. Pior, talvez soubéssemos, quando conhecêssemos outras tantas crianças que trazem luzàs suas famílias.

O médico que queríamos que matássemos o Daniel nos fez sentir sozinhos. Outras pessoas nos fizeram sentir sozinhos. Outras nos confortaram. Outras jogaram luz nas sombras. Não estávamos sozinhos. Não precisávamos de conforto. Ele nunca nos deixou nos sentirmos sozinhos. Nem de madrugada ou cedinho pela manhã, quando quer brincar. Junto ele trouxe amigos, famílias que enfrentam as mesmas dificuldades e que se dão suporte. Quando você descobrir sobre a síndrome de Downtenha certeza, você não estará sozinho.

Sentimos medo. Alguns sentem angústia. A criança que esperávamos, nos padrões ordinários de normalidade não veio. Em seu lugar veio o Daniel. E sabe de uma coisa? Ainda bem! Não mudaria nada nele. Talvez o câncer, mas nem tenho certeza. Todos os sentimentos de medo, angústia e apreensão são válidos. Mudar dói. Enfrentar o diferente não é fácil, mas totalmente vale a pena. Os desafios são grandes, mas as vitórias mais saborosas. O médico queria que matássemos e não saboreássemos as dificuldades e vitórias da nossa história.

Síndrome de Down não significa sem saúde ou doente. Existem desafios relacionados à saúde. Mas quem não tem desafios com a própria saúde? Antes de significar doença, o Daniel significa vida, digna de celebração. E isso não é conversa da boca para fora. Celebramos a vida dele e das irmãs todos os dias. Quando o médico sugeriu que matássemos o Daniel, ele não nos disse que era para matar a celebração, mas era exatamente isso que ele queria nos privar.

O cromossomo extra significa exatamente isso, um cromossomo extra. Traz dificuldades, enormes, diárias? Sim, traz! Qual vida não traz em seu bojo dificuldades enormes? Alguém aí tem vida fácil? A sua vida é fácil?

Depois de quase 08 anos, a pequena experiência acumulada, mostra que período foi de aprendizado, de superação e de vitórias. A síndrome de Down representa pouco na nossa vida. O Daniel representa muito. A experiência que tivemos até aqui foi vitoriosa.

Não vou pedir que ninguém deixe de abortar, embora o nosso desejo seja de fazer esse pedido. O que sugerimos a quem receber o diagnóstico da síndrome de Down e que, antes de uma decisão tão drástica, conheça a realidade das pessoas com síndrome de Down. Busque conhecer a força e potencialidade da vida.

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